FHC chama Lula e Bolsonaro de irresponsáveis


Para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não é apenas a polarização que pode levar o Brasil a crises e protestos. Na avaliação dele, a agenda econômica "ultraliberal" do governo Jair Bolsonaro é um fio 'desencapado' capaz de gerar revoltas populares, como as que ocorrem no Chile. 

Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, em Londres, FHC elogiou a reforma da Previdência, mas não poupou palavras para criticar outras propostas de ajuste fiscal lançadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, como a taxação do seguro-desemprego. 

"Na situação do mundo hoje, um fio desencapado pode levar a um curto-circuito. Eu quero isso? Não, mas pode acontecer. Eu acho que essa política ultraliberal dificilmente se implanta na sociedade brasileira", disse.

O ex-presidente classificou "de ridícula" a criação pelo governo de uma alíquota de 7,5% sobre o benefício concedido aos desempregados. Para ele, a medida é fruto da mente de políticos que vivem 'numa bolha' e desconhecem a 'realidade brasileira'. 

"Eu sou mais liberal que estatizante, mas não sou ultraliberal. Acho que tem que ter equilíbrio e noção das necessidades concretas das populações. Não adianta ter uma fórmula bem-feita, porque ela não se aplica a todas as sociedades. Taxar seguro-desemprego chega a ser quase ridículo."

Na conversa com a BBC News Brasil, Fernando Henrique Cardoso também criticou os novos "rumos do PSDB", disse que, se estivesse no lugar do deputado Aécio Neves (PSDB-MG) deixaria o partido voluntariamente e sugeriu um novo nome para disputar a Presidência pela sigla em 2022: Eduardo Leite, atual governador do Rio Grande do Sul, que tem 33 anos. 

Cardoso também falou da soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele avalia que o discurso adotado por Lula desde que deixou a cadeia instiga a "radicalização" e "beneficia" o presidente Jair Bolsonaro. 

"Para o presidente Bolsonaro, talvez seja uma oportunidade para voltar a polarizar. Pelo discurso que eu ouvi do presidente Lula, o presidente Bolsonaro pode dizer: 'Tá vendo, olha o perigo'. Então aumenta a radicalização."

Sobre Bolsonaro, FHC disse que o presidente instituiu um "governo de família", que "tropeça sozinho" e que vê "inimigos onde não tem". Ele também criticou referências recentes da família Bolsonaro ao AI-5, instrumento da ditadura militar editado em 1968 que fechou o Congresso e cassou as liberdades individuais

"Acho lamentável que as pessoas falem sobre o AI-5 como se fosse uma coisa banal. Não foi, foi grave, fez mal à democracia. Conseguimos repor a democracia no Brasil e temos que lutar para preservá-la", disse FHC.

No início do mês, o deputado Eduardo Bolsonaro disse que "se a esquerda se radicalizar" um novo AI-5 poderia ocorrer. Na segunda (26/11), foi a vez de Paulo Guedes dizer: "Não se assustem então se alguém pedir o AI-5". O ministro da Economia fez o comentário ao comentar sobre falas recentes do ex-presidente Lula. 

Fernando Henrique Cardoso está na Inglaterra a convite do Programa de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford, para falar sobre os 50 anos de seu livro mais consagrado como sociólogo: Dependência e Desenvolvimento na América Latina. 

A palestra ocorre num momento em que a América Latina parece distante da 'eterna' promessa de desenvolvimento. Crises na Colômbia, Bolívia e Chile, e a polarização no Brasil são exemplos do momento de convulsão política e social na região. 

BBC News Brasil - O senhor dará uma palestra em Oxford em comemoração aos 50 anos de um de seus livros mais consagrados como sociólogo, Dependência e Desenvolvimento na América Latina. Isso acontece num momento em que grande parte dos países da América do Sul vive crises seríssimas, principalmente Chile, Bolívia e agora Colômbia. O que essas convulsões revelam sobre o momento político da região e essa eterna luta da América Latina pelo desenvolvimento? 

Fernando Henrique Cardoso - É verdade, mas o que acontece nesse momento não é só na América Latina. Há uma agitação política no mundo todo. Agora a questão é mais de comunicação. O mundo contemporâneo, a internet, a conversa instantânea mudou muito as coisas, o que levou a uma grande transformação também na ação política. As pessoas se juntam de repente. Um fio desencapado pega fogo. Os partidos - mas não só os partidos- também as outras instituições, têm menos vigência, menos valor para conduzir o comportamento. As pessoas se relacionam diretamente. Essa transformação está hoje colocando em crise a democracia representativa.