Dólar nas alturas, o que isso afeta o país


A disparada do dólar, que beirou R$ 4,28 hoje e fechou cotado a R$4,24, depois de dois leilões do Banco Central para conter o avanço, deve ter impacto em preços importantes do dia a dia dos brasileiros. A gasolina e o diesel, por exemplo, podem ficar mais caros e contaminar outros preços, e a viagem internacional de férias de fim ano pode não passar de um sonho.

Para as indústrias exportadoras e que sofrem com a concorrência dos importados, esse avanço pode ser positivo para as vendas externas e para tomar o lugar dos importados no mercado doméstico. Mas as empresas que usam matérias-primas e componentes estrangeiros e o comércio varejista que compra itens de Natal no exterior, o custo das mercadorias deve subir. O repasse para os preços pode ser inevitável, apesar de a inflação andar bem comportada. A pressão crescente do dólar nos preços pode até mexer na condução da política monetária do Banco Central e interromper o ciclo de corte de juros básicos no ano que vem, preveem economistas.

A escalada do câmbio levou o BC fazer nesta terça-feira, 26, dois leilões de moeda para conter a cotação. O estopim da alta ocorreu na segunda-feira, quando o ministro da Economia, 

Paulo Guedes, disse em evento em Washington (EUA), que “é bom o mercado se acostumar com o câmbio mais alto por um bom tempo”.

 O comentário do ministro soou para o mercado como uma indicação de que não existe preocupação com o atual patamar de câmbio. E a interpretação foi de que o BC não iria atuar, segundo avaliação feita pela economista da CM Capital Markets, Camila Abdelmalack, à Reuters.

Apesar de a fala do ministro ter desencadeado o repique do câmbio, não é de hoje que a cotação da moeda americana anda pressionada. 

“O dólar lá fora está muito forte contra o euro, conta libra esterlina e outras moedas”, afirma o economista Armando Castelar, coordenador da área de Economia Aplicada do FGV IBRE.

Ele aponta vários fatores externos, como crescimento dos EUA acima da média de outros países, a guerra comercial entre China e EUA e a maior remuneração paga pela bolsa americana, para que o dinheiro saia do País. 

“Isso explica porque o dólar foi de R$ 3,5 para mais de R$ 4”, diz Castelar, acrescentando que esse cenário é comum a todos os países emergentes.

No entanto, existem fatores peculiares ao País, como os juros na mínima histórica, ressalta o economista Gesner Oliveira, professor da FGV-SP e sócio da GO Associados. “O juros em baixa atrai menos capital de curtíssimo prazo, porque o diferencial de taxas hoje é menor.” Ele lembra também que há uma contração no comércio internacional que prejudicou o saldo da balança comercial, o que pressionou o câmbio.

Juros na mínima histórica no Brasil têm feito as empresas trocarem financiamentos externos pelos domésticos, que são mais baratos, diz o economista Antonio Madeira, da MCM. As companhias compram dólares internamente, o que pressiona a cotação da moeda, e enviam os recursos ao exterior para quitar dívidas, tornando o saldo financeiro mais deficitário.

Castelar acrescenta a esse fluxo financeiro a saída de capital estrangeiro da Bolsa brasileira. Eles estão tirando o dinheiro porque o crescimento da economia não veio no ritmo esperado e existe muita preocupação com os movimentos políticos que ocorrem no Chile e Bolívia e com as mudanças de política econômica na Argentina. “Existe um certo receio por conta da incerteza política”, resume.